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A porta do carro abriu. Ergui lentamente os olhos e vi os flashs do fotógrafo oficial. O tapete vermelho começava de onde meus pés tocaram o chão e sumia pela longa escadaria de mármore branco que dava para o salão de festas. Soltei o vestido suspenso pelas mãos e este esparramou-se pelo chão fazendo um degradê de vermelho com o tapete. Seus brilhos desenhavam ondas que contornavam minha cintura e ressaltavam os seios apertados no decote. Pensei que aquele vento pudesse desmanchar meu penteado clássico preso.
Todos da empresa estavam ali para fazer uma surpresa para o convidado da noite. Entrei no salão e distribui sorrisos. Tirei fotos com alguns, brindei com outros, troquei beijinhos. Mas, sentia-me solitária caminhando na multidão.
(...)
Minha irmã deitada no sofá me olhava dar o nó na gravata. Perguntou-me o que significava eu ter aceitado ir a festa. Disse-lhe que eu sentia vontade de ir. Insistiu no questionamento e quis saber se eu ia para ver Jéssi. Falei que também.
_Você nunca aprende?
_Não, o amor nunca quer aprender.
_Amor? Amor... _ balançou a cabeça para os lados e continuou lendo a revista.
_Agora eu sei que Jéssi não falou mais comigo desde o seqüestro porque você pediu. Quero vê-la e ponto final.
Naquela tarde minha irmã e eu tivemos uma grande discussão porque ela me confessara que fora a responsável pelo afastamento de Jéssi. Eu não podia acreditar que ela me privara do que eu mais lutei durante todo aquele tempo! Só que não perdi mais nenhuma hora tentando fazê-la se sentir a pior das mortais por reconhecer seu erro. Eu queria imediatamente ver Jéssi. Será que ela ainda sentia o mesmo?
(...)
_Você acha que ele vem? _ meu pai perguntou.
Não respondi, continuei aflita batendo no copo com os dedos.
_Todos estão esperando...
Senti que meu pai queria que eu ligasse para fazer uma pressão, mas eu não iria fazer isso. Fazia uma semana que Paulo saíra do hospital e não nos falamos. Ele deve ter ficado com raiva de eu não ter ido visitá-lo.
Quando eu estava perdendo já a paciência, com o nervosismo a flor da pele, ouvi o primeiro aplauso, depois outros, até que virou uma ovação. Procurei o foco desencadeador. Estiquei o pescoço.
Lá estava ele, com o braço imobilizado e o paletó por cima dos ombros. Ainda mais bonito. Eram muitos homens dentro de um só. Era o meu colega de quarto. Era o segurança do meu pai. Era o seqüestrador. Eram tantos personagens. Não sei qual amava. Talvez amasse qualquer coisa que ele pudesse, na verdade, ser. Porque em todas as suas fases eu estava perto, desejando-o, contra ou a favor do meu lado racional.
Meu pai pegou o microfone e chamou a atenção de todos.
_Dizem que os gatos têm sete vidas. Na outra, ele deve ter sido um gato de madame que vivia no sofá e acumulou mais vidas para essa! Deve ter umas 14.
Todos riram.
_Paulo, você está vendo essas pessoas? O sangue de quase todas elas passaram pelo seu coração. Todos tentamos te salvar.
Ele fez um aceno de agradecimento.
_Mas, ninguém acreditou tanto quanto uma pessoa.
Meu coração disparou. Já era inacreditável meu pai ter mudado sua concepção sobre Paulo, não podia crer que iria fazer um discurso mais longo:
_Eu tenho muitos planos para minha filha. Todo pai tem... Mas, você sempre teve um plano para tirá-la de apuros...
(...)
O pai de Jéssi falava e eu já não conseguia escutar bem. Meu coração parecia tamborilar mais alto. Eu aguardei muito tempo a chance perfeita. O momento. O dia. A hora. O instante. E nada disso precisava de tradução. Ele falava para as pessoas entenderem o histórico de tudo. Mas Jéssi eu já tínhamos entendido muito antes que não dava mais para não acontecer.
Eu não tive medo das armas que poderiam ser disparadas sobre nós. Eu tinha medo era de que matassem o que sentíamos. Jéssi era meu erro irreparável, que eu não queria, mesmo que tentasse, ajustar.
Não esperei que ele terminasse de falar. Caminhei na direção de Jéssi.
(...)
Paulo parou na minha frente. Meu pai largou o microfone e fez sinal para o DJ subir a música. Fez uma cara de quem não ia atrapalhar mais. A luz abaixou e as pessoas formaram casais para dançar. Como algumas pessoas ainda nos olhavam esperando o momento que parecesse cena de filme, Paulo indicou com o braço a área externa. Caminhei na frente e quando parei na varanda do lado de fora, pensei rápido em tampar o silêncio do diálogo com qualquer assunto:
_Viu quanta gente? Foi um milagre... E...
Paulo puxou minha nuca com a mão do braço que não estava ferido e me beijou. Era finalmente um beijo sem qualquer impedimento. Acariciei seu cabelo, senti seu perfume, o calor do seu corpo. Sorri e afastei um pouco o rosto.
_Eu tenho um trabalhinho para você. _ falei-lhe baixinho, com nossas testas coladas.
_É? E como será o pagamento?
_Isso eu conto depois... _ falei baixinho em seu ouvido.
Ele abaixou a cabeça e riu. Segurou minha cintura e olhou nos meus olhos.
_Quero que você me proteja para sempre.
_Mas, é trabalho completo?
_Completíssimo. _ ri e o beijei de leve, provando seu lábio quente e úmido.
_É por isso que eu gosto de trabalhar com você, nada profissional. _ zombou.
_Ah! _ dei-lhe um soquinho no peito e o puxei mais para perto. _ Eu te amo.
_Eu preciso provar isso mais alguma vez?
_Mas eu finjo que não acredito só para ouvir...
_Eu te amo._ falou e me beijou.
Como a noite terminou... Me lembro de um edredom e de uma xícara de chocolate. O resto é só começo de tudo.
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